Fim

Ligação e separação

Sobre a capacidade de nos ligarmos, sabendo que a separação é inevitável.

São complexas todas as relações e são especialmente difíceis os movimentos de ligação e de separação, a partir da altura em que perdemos a inocência sobre o sempre. Quando começamos a amadurecer e percebemos que o sempre nunca dura e que, por isso, todas as relações envolvem, inevitavelmente, separação. Fim. Em último desfecho, senão outro, o fim trazido pelo próprio fim da vida. Mas, mesmo antes desse, ou mesmo sem outros fins mais concretos, há sempre fins e separações simbólicos a acontecer nas relações, nas suas transformações e na transformação que vem da própria vida, do crescimento. Pais e filhos passam por transformações que levam a movimentos de separação, amigos também, irmãos, casais... enfim, basta pensarmos um pouco nas relações mais significativas da nossa vida, e mais longas, para irmos percebendo os momentos em que transformações e separações mais ou menos naturais, mais ou menos esperadas, mais ou menos dolorosas ou mais ou menos conscientes, foram acontecendo. E ter esta consciência e esta angústia, facilmente nos leva a defender-nos. A querermos evitar a relação, para evitar esta angústia de algo que se tem e que se vai transformar. Perdendo alguns aspectos dessa relação, mas ganhando outros. Se evitarmos relações, com medo do que poderemos perder e sofrer, acabamos por cumprir com a separação mais radical: a de não nos ligarmos de todo. E ficamos desamparados na nossa própria solidão.

É dura esta profissão e esta condição humana, pois claro que a nossa profissão, enquanto psicólogos, é uma extensão da condição humana, cimentada em bases teóricas e clínicas. Mas trabalhamos com o que há em nós de mais profundo e verdadeiro, assim como nas nossas relações pessoais mais íntimas. Recebemos de braços abertos as pessoas que nos procuram. Muitas vezes embatemos em muros, tentamos entrar, sem sucesso. Tentamos abrir uma janela para entrar luz, mas tem de ser com tanta calma e minúcia que por vezes demoramos anos a escavar 1cm. Outras vezes, às tantas, somos nós os muros e nem os vemos. As mágoas da vida também nos atacam, somos humanos. É duro estar de braços abertos, querer ajudar, querer ser porto seguro e ser deixado, sem ter tido a hipótese. Sinto sempre que falhei, por muito que possa ver o muro alto que a pessoa trazia. Mas de certeza que falhei, porque fui espelho de uma relação antes falhada que não ofereceu segurança nem acolhimento, e falhei por não conseguir partir o espelho e oferecer, do outro lado, uma mão que segure.

Mas quando a ligação se dá, é igualmente duro que, passados anos, comecemos a ver indícios de fim. A transformação do outro, a nossa, leva-nos a chegar ao ponto em que a angústia da vida se torna mais integrada, em que as principais pedras dos sapatos foram sendo atiradas fora, com muito mais capacidade para perceber quando lá está outra. E a minha dúvida é: porque é que tem de haver um fim? Ou pode ser uma transformação? A verdade é que o caminho da relação e do auto-conhecimento é inesgotável. Não tem de existir um fim objectivo, mas aprendemos que isso seria um bom sinal, a seu devido tempo. 

De qualquer forma, a ligação mais direta pode perder-se, no tempo presente, mas e os fios que nos ligam nas memórias, no crescimento, na partilha, em conjunto? Sim, ficam lá, ficamos para sempre a viver na rede que nos liga e onde noutro tempo existimos criativamente. Mas, por muito que seja poético e que ajude a elaborar, a verdade é que o murro da dor da separação vai bater. E vai doer. Vai demorar a transformar o espaço entretanto vazio e a ver para lá do que é concreto. Todas as relações se transformam. Algumas, terminam. Outras, mudam de forma. Há as que mantêm a ligação, e há as que se desligam. Todos os fins implicam lutos. E há tantos fins na vida. E, por mais que doa esse fim, não é por isso que devem deixar de existir inícios.


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Prematuridade: Causas e implicações
A gravidez é uma etapa do desenvolvimento muito sensível, de ambivalências em vários sentidos e de grande vulnerabilidade emocional (Maldonado, 2002 in Borsa, 2007). É uma fase de transformações a vários níveis que desafiam a grávida, o casal e a família, mas pode ser também encarada como uma possibilidade muito rica de crescimento e desenvolvimento (Campos, 2000). Durante a gravidez, a mulher retoma aspetos de toda a sua vida anterior, das suas experiências com os seus pais, da vivência edipiana e dos movimentos de dependência e de separação que viveu nessa tríade, sendo uma nova oportunidade de elaboração de conflitos anteriores e de novos movimentos de individuação (Brazelton & Cramer 2002 cit. in Borsa, 2007), gerindo ainda tarefas como aceitação da gravidez e do feto, do relacionamento com o parceiro, aceitação da individualidade do bebé e integração da identidade parental (Colman & Colman, 1972 cit. in Campos, 2000), num movimento de dupla identificação pontuada também por dinâmicas narcísicas que dão sentido às mudanças relacionadas com o crescimento do seu filho (Ferrari & Donelli, 2010). Surge então a necessidade de “arrumar” o seu mundo interno, por forma a encontrar um espaço onde possa contruir o lugar de mãe e o lugar do filho que irá nascer (Ferrari et al., 2006 cit. in Ferrari & Donelli, 2010). De facto, se tudo correr conforme esperado, o crescimento embrionário e fetal e o desenvolvimento da relação parental decorrem ao mesmo ritmo (Wertheim e Morris 1987, cit. in Campos, 2000). O bebé imaginário constrói-se neste conjunto de processos de integração e diferenciação que vão ocorrendo, e deve ser atualizado no nascimento (Ferrari & Donelli, 2010), pois também a mãe terá de conjugar a mãe que imaginou que seria com o papel de mãe que irá gradualmente contruindo. Esta harmonia e conjugação é de extrema importância, para que a dinâmica não fique comprometida com um choque entre fantasia e realidade, como acaba por acontecer nos casos de prematuridade. Atualmente nascem cada vez mais crianças prematuras, possivelmente reflexo da cultura de grande exigência profissional e pessoal (Moreira, 2007), num tempo cada vez mais acelerado e impaciente. Apesar dos avanços nos cuidados ao bebé prematuro, o nascimento prematuro é uma das dez principais causas de morte neonatal e representa mais de metade das causas de morte no primeiro mês de vida (Blau et al., 1963). Grande avanços foram e continuam a ser feitos e já na segunda metade do Século XIX começou 3 a ser possível assegurar a sobrevivência de bebés nascidos antes de termo, algo impossível até então, graças aos desenvolvimentos da medicina neonatal e obstetrícia e aos avanços tecnológicos (Botelho, 2003), assistindo-se no fim deste século ao surgimento da incubadora e à criação da primeira unidade de cuidados intensivos neonatais, em 1895, em Paris (Gomes-Pedro et al, 1997, cit. in Botelho, 2003). Nos anos 50 e 60 do século XX, os cuidados neonatais eram especialmente atentos aos perigos das doenças contagiosas, resultando em políticas de isolamento que separavam fisicamente as áreas de obstetrícia das áreas de pediatria, reunindo todos os bebés a termo em grandes enfermarias de onde os pais e familiares eram excluídos (Brum & Schermann, 2004). Na década de 70, os cuidados centrados na família permitiram a entradas dos familiares e a permanência dos bebés nos quartos das mães durante as visitas e nos anos 80 e 90 mães e filhos passaram a partilhar o quarto ( Klaus & Kennell, 2000 in Brum & Schermann, 2004). Atualmente, e graças aos contínuos avanços na medicina e tecnologia, é possível a sobrevivência de bebés nascidos com apenas 23 semanas de gestação e peso inferior a 500 gramas (Botelho, 2003). Contudo, todo o processo que decorre após o nascimento de um bebé prematuro é extremamente complexo e envolve uma dinâmica relacional tão sensível quanto o novo ser que nasceu antes de estar pronto, para uma mãe também ela prematura.


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