Prematuridade: Causas e implicações
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A gravidez é uma etapa do desenvolvimento muito sensível, de ambivalências em vários sentidos e de grande vulnerabilidade emocional (Maldonado, 2002 in Borsa, 2007). É uma fase de transformações a vários níveis que desafiam a grávida, o casal e a família, mas pode ser também encarada como uma possibilidade muito rica de crescimento e desenvolvimento (Campos, 2000). Durante a gravidez, a mulher retoma aspetos de toda a sua vida anterior, das suas experiências com os seus pais, da vivência edipiana e dos movimentos de dependência e de separação que viveu nessa tríade, sendo uma nova oportunidade de elaboração de conflitos anteriores e de novos movimentos de individuação (Brazelton & Cramer 2002 cit. in Borsa, 2007), gerindo ainda tarefas como aceitação da gravidez e do feto, do relacionamento com o parceiro, aceitação da individualidade do bebé e integração da identidade parental (Colman & Colman, 1972 cit. in Campos, 2000), num movimento de dupla identificação pontuada também por dinâmicas narcísicas que dão sentido às mudanças relacionadas com o crescimento do seu filho (Ferrari & Donelli, 2010). Surge então a necessidade de “arrumar” o seu mundo interno, por forma a encontrar um espaço onde possa contruir o lugar de mãe e o lugar do filho que irá nascer (Ferrari et al., 2006 cit. in Ferrari & Donelli, 2010). De facto, se tudo correr conforme esperado, o crescimento embrionário e fetal e o desenvolvimento da relação parental decorrem ao mesmo ritmo (Wertheim e Morris 1987, cit. in Campos, 2000). O bebé imaginário constrói-se neste conjunto de processos de integração e diferenciação que vão ocorrendo, e deve ser atualizado no nascimento (Ferrari & Donelli, 2010), pois também a mãe terá de conjugar a mãe que imaginou que seria com o papel de mãe que irá gradualmente contruindo. Esta harmonia e conjugação é de extrema importância, para que a dinâmica não fique comprometida com um choque entre fantasia e realidade, como acaba por acontecer nos casos de prematuridade. Atualmente nascem cada vez mais crianças prematuras, possivelmente reflexo da cultura de grande exigência profissional e pessoal (Moreira, 2007), num tempo cada vez mais acelerado e impaciente. Apesar dos avanços nos cuidados ao bebé prematuro, o nascimento prematuro é uma das dez principais causas de morte neonatal e representa mais de metade das causas de morte no primeiro mês de vida (Blau et al., 1963). Grande avanços foram e continuam a ser feitos e já na segunda metade do Século XIX começou 3 a ser possível assegurar a sobrevivência de bebés nascidos antes de termo, algo impossível até então, graças aos desenvolvimentos da medicina neonatal e obstetrícia e aos avanços tecnológicos (Botelho, 2003), assistindo-se no fim deste século ao surgimento da incubadora e à criação da primeira unidade de cuidados intensivos neonatais, em 1895, em Paris (Gomes-Pedro et al, 1997, cit. in Botelho, 2003). Nos anos 50 e 60 do século XX, os cuidados neonatais eram especialmente atentos aos perigos das doenças contagiosas, resultando em políticas de isolamento que separavam fisicamente as áreas de obstetrícia das áreas de pediatria, reunindo todos os bebés a termo em grandes enfermarias de onde os pais e familiares eram excluídos (Brum & Schermann, 2004). Na década de 70, os cuidados centrados na família permitiram a entradas dos familiares e a permanência dos bebés nos quartos das mães durante as visitas e nos anos 80 e 90 mães e filhos passaram a partilhar o quarto ( Klaus & Kennell, 2000 in Brum & Schermann, 2004). Atualmente, e graças aos contínuos avanços na medicina e tecnologia, é possível a sobrevivência de bebés nascidos com apenas 23 semanas de gestação e peso inferior a 500 gramas (Botelho, 2003). Contudo, todo o processo que decorre após o nascimento de um bebé prematuro é extremamente complexo e envolve uma dinâmica relacional tão sensível quanto o novo ser que nasceu antes de estar pronto, para uma mãe também ela prematura.


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