Vem uma febre. Aguentamos 1, 2 dias. Tomamos alguma medicação para ajudar. Mas se a febre demora, o que fazemos? Provavelmente pensamos: epá, alguma coisa não está bem. Tenho de ir ver o que se passa!
Vamos à procura da causa daquele sintoma. Uma infecção ou inflamação, talvez, mas temos de saber de onde vem, para poder resolver de vez, não só o sintoma, mas tudo o que o está a causar.
Quando o sintoma é da ordem psíquica, psicossomática, a lógica é a mesma. O sintoma ajuda-nos a perceber que alguma coisa não está bem e a saber, mais ou menos, onde procurar o problema por detrás. O exame, esse, não é tão imediato e concreto, porque a mente não tem lugar fixo, ou melhor, ela está em todo o corpo. Não é possível uma ecografia, ou um raio-x, nem umas análises à bioquímica mental! O exame, neste caso, é um auto-exame, apoiado por um olhar experiente em sintomas e significados da mente, e começa pelo próprio olhar interno, da mente sobre a mente. O que se passará? De onde vem este mal-estar, esta ansiedade, esta insónia, esta angústia? O que me está a dizer, este sintoma, sobre mim e sobre o que se passa na minha vida? Que emoções carrega este sintoma? E o que o poderá estar a causar? É por aqui o caminho, daí a enorme importância do sintoma e do seu significado.
Quando começamos a olhar o sintoma, a ouvi-lo, a tentar compreendê-lo, ele por norma começa a ter menos impacto na nossa vida. A sua função, está a dar resultados. O sintoma serve para nos chamar à atenção de que alguma coisa não está bem, não está equilibrada e precisa de ser mudada/reajustada/encarada/sentida/percebida, etc. ...
Pode ajudar tomar uns comprimidos, dizem muitos: para a angústia, para a insónia, para a ansiedade. Fazer umas respirações. Baixar a luz antes de dormir, evitar estímulos. Mas isto resolve? Não. Isto pode apagar o sintoma, se for eficaz o suficiente, mas não resolve a causa e, dessa forma, outro sintoma acaba por arranjar forma de aparecer, de chamar à atenção, cada vez mais intenso, mais alto, mais difícil de controlar.
É fácil ter a percepção deste encadeamento, se já tentámos resolver sintomas através de formas mais superficiais, que não vão à origem do problema, pois rapidamente vemos outras dificuldades surgirem, ou a mesma, mais intensa.
Ir à procura da origem do sintoma, não é uma tarefa fácil. Não tão fácil como ir fazer um exame clínico. Mas a verdade é que, por estarmos nessa procura e termos dado ouvidos a esse sintoma, já estamos a fazer grande parte do caminho que o minimiza. Isto não quer dizer que outros sintomas, outro mal-estar, outras angústias não apareçam, mas quer dizer que estaremos mais capazes de os ver e escutar e, assim, encontrar a origem do desequilíbrio que os provoca. E desequilíbrios, esses, sempre existirão na nossa vida, na medida em que as coisas saem frequentemente fora daquilo que esperávamos e que esbarramos na nossa impotência para controlar os acontecimentos. Mas é diferente não dormir bem durante anos, sem saber porquê, ou ter ataques de pânico frequentes em situações aleatórias, sem saber porquê, ou, em vez disso, olhar de frente a nossa condição humana, elaborar a nossa impotência, aceitar as nossas emoções e poder senti-las, enquadrar a nossa história e seguir um caminho mais livre. Também dói por vezes, mas dói durante menos tempo, sabemos porque dói e sabemos que vai aliviar-nos.
Comentários (0)